A Descoberta da Maldição

Neste conto, Samej explica à Katrina como iniciou a maldição vampírica.

“Caim mata Abel”, de Ticiano Vecellio | © Domínio público, via Wikimedia Commons


“Sangue. É o portador da vida nos seres vivos. É ele quem leva o oxigênio e os nutrientes indispensáveis à uma vida sã. É ele que também transporta os detritos do que já foi utilizado pelo organismo, aos locais onde possam ser eliminados.
Esta é a função do sangue em seres vivos.
Mas existem seres que não estão vivos. Os quais não necessitam do sangue corrente em suas veias e artérias. O sangue, destituído de vida, cessa sua função. Apodrece, perde sua característica rubra. Torna-se negro, de aspecto nauseabundo. Enfim, em seres desprovidos de vida, o sangue seca.
Mas existe uma categoria de seres, que não pertencem nem à vida, nem à morte. Seres esses que estão destituídos de vida e cuja morte lhes foi negada. O que esses seres possuem é um arremedo de vida. Costumo dizer que esses seres possuem uma não-vida, condenados a perambular por esta Terra sem destino ou causa.
Estes seres possuem características dos dois estados citados acima. Possuem a vida aparente dos seres viventes, andando e vagando por caminhos desprovidos de sentimento. Mas seus órgãos estão mortos, e seu sangue, apodrecido, negro, fétido. Devido à falência de seus órgãos, estes seres não podem levar uma “vida” comum. Seus hábitos alimentares diferem em muito dos seres vivos. Como seu coração é um dos órgãos que falecera, não pode bombear o sangue que se encontra estagnado em suas veias. Sangue este de aspecto purulento, sânie. Mas para que possa executar seus movimentos, para que possa se locomover, é preciso enviar sangue aos músculos mortos. Aí se encontra o problema. Como um ser “aparentemente” vivo, mas sem vida, pode obter o volume necessário de um líquido característico dos seres ao qual ele não mais pertence?
No início, quando o primeiro ser vivo não-vivente surgiu, muito se indagou sobre aquela sensação estranha, sensação que se assemelha a um ardor provocado por fogo, exatamente no centro de suas entranhas podres. Esta sensação não passava com a ingestão de água fresca, vinho ou qualquer outra bebida. Isto o debilitava. Tentou, em vão, saciar aquela fome e sede, — como quer que queira chamá-la —, com víveres e outras coisas, mas nada lhe saciava, ao contrário, percebeu que qualquer coisa que colocasse em seu ventre, era repelida com violentas contorções de suas tripas, aumentando a intensidade de suas dores. Assim perambulou por alguns dias, até que foi subjugado pela fraqueza. Desfaleceu em um bosque, à entrada de uma grande caverna. E ali ficou durante um tempo por ele ignorado. Mas foi despertado. De forma peculiar, mas foi despertado. Uma criatura de sangue quente, pele macia e orelhas compridas, — hoje conhecida como lebre —, não controlou sua curiosidade e foi farejá-lo. Com um instinto que não conhecia em si, despertou num repente, agarrando o frágil animal com garras de aço. E subconscientemente, levou o pequeno animal à boca, mordendo-o com avidez, sorvendo o soro da vida, o líquido escarlate, quente, grosso, que desceu por sua garganta aliviando temporariamente o furor que lhe atormentava.
Com aquele diminuto alimento, conseguiu levantar-se. E, curioso, passou a observar a noite que se iniciava. Percebeu como agora, parcialmente saciado, a noite lhe aparecia diferente. As cores haviam ganhado novos matizes, os sons chegavam mais nítidos. Coisas pequeninas eram detectadas com uma porcentagem de acerto surpreendente. E não só seus sentidos haviam mudado, mas também seu corpo. Em pé, ainda com o cadáver em sua mão, notou como seus músculos definhados com a falta de alimentação se recuperavam a olhos vistos, sua força foi aumentada, seus movimentos, como felinos, eram ágeis e certeiros. Notou que havia um certo brilho em seu campo de visão, um brilho como o das brasas, que produz claridade apenas para ser visto, e não para iluminar, mas que lhe trazia uma nitidez assombrosa à sua visão, algo parecido com o dia na noite. Aproximando a mão de seu rosto, notou que eram seus olhos os portadores de tal brilho. Desejou que o brilho sumisse e como por encanto, a escuridão da noite retornou. Mas não retornou sozinha, uma sensação peculiar foi sentida em sua boca, mais precisamente em sua arcada dentária. Ao tocar seus dentes, tudo estava normal. Estranho, pensou ele. Sua razão foi voltando aos poucos, mas não lhe explicava por que, muito menos o que havia acontecido para que ele se restabelecesse dessa forma. Foi quando notou o corpo de seu alimento ainda em sua mão. Ao tentar observá-lo melhor, aquele brilho voltou, lhe permitindo enxergar a marca de uma mordida animalesca no pescoço da lebre. E no mesmo instante, enquanto seus olhos se acendiam, a sensação em sua mandíbula voltou a assombrá-lo, juntamente com a visão de dois furos concêntricos, paralelos. Automaticamente levou a mão à boca e notou como seus caninos haviam se transmutado em presas, longas, afiadas.
Deixou sua refeição cair ao solo e pôs-se a caminhar. Caminhou sem destino certo, errante, observando as estrelas e constelações. Próximo do que para nós seriam três horas da madrugada, aproximou-se de um vilarejo, pequeno, humilde, e parou em sua entrada, observando os animais noturnos em sua caçada: gatos correndo atrás de ratos; corujas e mochos saltando de seus galhos sobre suas vítimas ofídias; aranhas em suas teias, capturando insetos e pequenos animais desprevenidos e cravando-lhes afiadíssimas presas, — chamadas “quelíceras” —, e injetando-lhes seu veneno, paralisando assim seu alimento para uma refeição posterior. E enquanto divagava sobre o quanto se parecia com esses seres noturnos, foi acometido por uma invasão de euforia. Seu olfato captara um odor altamente adocicado, embriagante, chamativo. E sem rodeios, como um cão, começou a seguir aquele cheiro. Isso pareceu muito mais fácil do que ele pressupunha. Seu olfato o levou até uma casa, já no fim de uma rua deserta, onde as casas eram separadas por vários terrenos vazios. O muro era baixo e não ofereceu resistência aos seus novos movimentos, executados com uma perfeição que beira o anormal. Aproximou-se de uma janela e observou, em seu interior, uma mulher, com aproximadamente vinte e três anos, envolta em um avental, os cabelos negros presos em um rabo-de-cavalo, com um pano nas mãos, pressionando o ferimento do marido, que se aproximava dos sessenta anos. O marido gritava com a esposa, pedindo para que pressionasse mais devagar, e ela, chorando, dizia que tinha que tirar o cravo de seu pé para que pudesse fazer o curativo corretamente, que ele teria de ser forte. Quando obteve a autorização do marido para puxar o cravo, ela retirou o pano de sobre o ferimento e uma lufada de sangue jorrou do orifício trespassado pelo cravo, de um lado ao outro do pé esquerdo do homem.
Lá fora, nosso sujeito, nosso ser confuso e noturno, espreitava, embriagando-se com aquele aroma, que até então não sabia ao certo de onde vinha.
Ao ver o ferimento expulsando o sangue em quantidade assustadora, seu instinto de caçador voltou e não houve tempo para o casal perceber o que havia acontecido. Atravessando a janela, voou em direção ao homem e segurando-o pelo tornozelo, levantou-o, deixando o homem de cabeça para baixo. A mulher, tomada pelo imprevisto, estacou, cataléptica, pelo susto. Quando tentou se mover, o monstro, mesmo de costas para ela, e ainda abocanhando o pé de seu marido, levou a mão esquerda para trás e agarrou-lhe o pescoço, aplicando tanta força que a última coisa que ela pôde ouvir, foi um som surdo e rápido de sua traqueia sendo quebrada. Sentindo o peso morto em sua mão, o homem a soltou e continuou a sorver aquele líquido maravilhoso que lhe estava fazendo milagres; quanto mais ingeria daquele sangue, mais queria, sua fome era quase insaciável. Ao terminar, soltou de qualquer jeito o homem ao chão, sem respeito, sem remorso, e soltou um grito gutural, assustador, medonho, grito este que mais parecia um urro selvagem, sim, era isso, tornara-se selvagem, e, abraçando sua nova natureza, atirou-se ao pescoço da mulher morta, caída atrás de si, o volume de sangue, logo que pressionou suas presas na garganta da jovem, foi maravilhoso e quase que ele não conseguiu conter seu conteúdo na boca, deixando filetes de sangue escorrer pelos cantos, mas assim que deu o primeiro grande gole, ele notou a diferença. Como o coração da mulher já não batia, tinha que fazer um pouco mais de força para sorver o delicioso sangue que se encontrava nas veias da sua vítima. O sangue ainda estava quente, mas era de um sabor levemente inferior ao do marido, que, com a ajuda do batimento cardíaco, não precisava fazer tanta força para sugar. E o sabor… ah!, o sabor do sangue vivo era muito melhor, trazia vida àquele corpo, trazia vigor, esplendor.
Assim que terminou sua alimentação, notou que a cor de sua pele, esbranquiçada desde que recebera a maldição, tornava-se rosada novamente.
Perdia a palidez outrora tão notada por todos os que olhavam para ele. Palidez esta que era a marca de sua maldição.
Soubera desta forma o que poderia conter aquela sensação de fogo em seu interior. Sangue. Sangue humano. O mais puro néctar que já havia provado. Nem mesmo as melhores frutas, das melhores safras que já havia colhido em seu antigo lar eram tão saborosas como o líquido carmesim. A essência da vida. O sangue. Então era isso. Essa era sua real maldição. Alimentar-se daquilo de mais precioso num ser humano. Aquilo que havia tirado de seu irmão caçula. O Sangue. A vida em estado líquido. Este era o seu combustível, seu alimento, sua nova ambição.”


— E essa, Katrina, é uma das muitas histórias que contam sobre Caim, o primeiro de nós, os Vampiros, como fomos chamados posteriormente. — Disse Samej.

— Mas Samej, como podemos ter certeza de que este foi realmente o princípio da Maldição? — perguntou Katrina, a pupila do antigo vampiro Samej. — Essa Maldição parece ter mais a ver com o diabo do que com o próprio Deus.

— Pense, minha querida. Se foi o próprio Deus quem criou Lúcifer, a quem tu chamas de diabo e que durante as eras recebeu tantos outros nomes diferentes, por que não poderia o mesmo Deus, a quem servi em vida, e louvado seja o Seu Nome, rogar uma maldição sobre alguém, ou melhor, sobre Caim, o primeiro homicida?! Ao assassinar seu irmão Abel, com inveja de seu relacionamento com o Criador, Caim estava rejeitando o próprio Deus Todo Poderoso. Derramou o sangue de seu irmão com uma pedrada na cabeça e enterrou-o, escondendo o corpo. Seu pecado foi premeditado. E como diz o ditado: “Aqui se faz; aqui se paga!”. A maldição do primogênito de Adão fora paga na hora. E a herança de sua Maldição chegou até nós. E assim como o sangue de Abel ainda clama por justiça, esta maldição persiste. Até que se cobre o preço do crime de nosso pai Caim, no final dos tempos, não seremos libertos.

FIM.


  • Autor: Michael R. Souza (05 de Setembro de 2009);
  • Fonte: Publicado originalmente no blog Inutilidades Acumuladas;