O Pensar Sobre Pensar

“Uma vez que a razão é o que analisa e coordena tudo, não deveria passar ela mesma sem análise.”
— Epicteto, discursos, 1.16


Introdução

Já tem algum tempo que eu venho pensando e meditando sobre a importância do ato de pensar sobre os nossos próprios pensamentos; sobre a quantidade e a qualidade das palavras presentes em nosso vocabulário pessoal, já que quanto maior a quantidade e qualidade das palavras que conhecemos e possuímos, maior também a quantidade e qualidade de combinações que poderemos construir para termos uma comunicação mais assertiva, objetiva e que realmente comunique aquilo que queremos comunicar àqueles que nos escutam e/ou leem. Porém, eu posterguei (e muito) para redigir um texto sobre esse tema por não ter prazo e ter dado prioridade a outros assuntos.

Mas no dia 24 de agosto de 2021, recebi em meu e-mail a Carta da Garota Estoica (a.k.a. Vanessa Cunha)[1] referente ao mês de agosto, cujo tema, para minha surpresa e apreciação, era justamente este: “O Pensar sobre Pensar”!

Tomei então a liberdade de trazer aqui a reprodução (na íntegra) dessa newsletter, pois tal conteúdo consegue, magistralmente, expressar o que eu vinha pensando há algum tempo.

Sem mais enrolação, eis aí abaixo a carta! 😉


Olá!

Espero que esta carta encontre você bem!

Sei que muitas pessoas não receberam a carta de Agosto, então resolvi enviá-la novamente a todos, apenas para garantir. Caso você tenha recebido a carta duas vezes, peço desculpas.

Começo com a seguinte pergunta: Você já ouviu falar sobre metacognição?[2]

De forma bem simplificada, metacognição é a ação de pensar sobre pensar. Trata-se da observação dos nossos pensamentos de forma a nos permitir refletir sobre eles, avaliá-los, organizá-los e mudá-los, quando necessário.

O termo metacognição, como conhecemos hoje, passou a ser utilizado a partir do século XX, mas desde a Grécia antiga, e provavelmente antes, temos registros de filósofos tratando sobre a importância do pensar sobre o pensar. Veja abaixo, por exemplo, o que Epicteto, filósofo Estoico, dizia há quase 2 mil anos:

“Uma vez que a razão é o que analisa e coordena tudo, não deveria passar ela mesma sem análise.”
— Epicteto, discursos, 1.16

Mas Vanessa, por que é importante pensar sobre pensar?

Por vários motivos, um deles está no fato de que caímos com facilidade no ‘piloto automático’. Fazemos coisas sem pensar, escolhemos coisas sem pensar, nos relacionamos com pessoas sem pensar, adotamos opiniões sem pensar. O piloto automático nos consome de tal maneira que muitas vezes pensamos ou agimos de determinada forma sem mesmo conhecermos o motivo. Por isso a importância de pensarmos sobre nosso pensar, para acessarmos com frequência se as nossas interpretações, nossas opiniões, nossas escolhas e comportamentos estão indo ao encontro do que realmente valorizamos e desejamos para nós, ou se são apenas decorrentes de um piloto automático.

Como diz Epicteto, são as próprias decisões corruptas da mente que podem impedi-la de funcionar bem. E podemos decidir não viver apenas no piloto automático.

Um segundo motivo é a facilidade com que somos influenciados negativamente por outras pessoas, pelos cenários ao nosso redor e até por nós mesmos.

Logo, é imperativo que façamos a constante observação dos nossos pensamentos, opiniões e escolhas para identificarmos se todos são mesmo nossos ou frutos de influências exteriores que, em muitos casos, podem estar em desacordo com o que é mais verdadeiro, mais correto, mais sábio, ou melhor para nós.

Resolvi falar na nossa carta de Agosto sobre o ‘pensar sobre pensar’, pois é característico daquele que vive o Estoicismo na prática entender a importância e fazer o exercício constante de refletir sobre seus próprios pensamentos.

Para ajudar você nesse processo, deixo abaixo algumas perguntas que pode utilizar para começar a colocar em prática o pensar sobre o pensar (sugiro que tente você também pensar em perguntas, exercícios ou reflexões que possam te ajudar nesse processo):

  1. O que embasa meu pensamento? Que fato concreto fundamenta ele?
  2. O pensamento, ou visão, foi sugerido por alguém? Quem é a pessoa? Quais são os valores dela? Quais são os fatos que fundamentam a visão de tal pessoa?
  3. Essa minha forma de pensar ou julgar algo faz sentido? Por quê?
  4. A minha forma de pensar, ou minha opinião, sobre algo foi construída com base em uma experiência negativa? Há chances de tal visão ter sido ‘contaminada’ por minha experiência? Como eu poderia repensar o assunto de uma forma mais construtiva? Se fosse alguém de fora olhando para a mesma situação, pensaria da mesma maneira?
  5. Trata-se de um pensamento, ou opinião, resultante de um sentimento de raiva, vingança ou mágoa? Olhando de forma mais racional para a questão, o pensamento me beneficia ou prejudica? Beneficia ou prejudica outras pessoas envolvidas?
  6. O pensamento vai ao encontro das virtudes consideradas fundamentais pelos Estoicos: sabedoria, justiça, temperança e coragem? (já falamos sobre as virtudes em cartas anteriores).
  7. O que posso fazer para examinar se meus pensamentos são coerentes e benéficos para mim e para as pessoas ao meu redor? O que posso fazer para organizar meus pensamentos e mudar os distorcidos?

Quando lemos as obras dos Estoicos, nos deparamos com inúmeras reflexões e ensinamentos que sugerem o pensar sobre o pensar, logo, não há dúvidas que a prática do refletir, organizar, observar e modificar nossa forma de pensar (quando necessário) é fundamental e necessária para aquele que busca viver a filosofia Estoica na prática. Como nos diz Marco Aurélio em meditações:

“Trate sua habilidade de controlar seus pensamentos com respeito, pois é o que protege sua mente de falsas percepções.”

Espero que após esta carta, você passe a considerar com mais seriedade a importância de pensar sobre seus próprios pensamentos, que possa adotar a prática constante de refletir sobre sua forma de olhar para a vida, para os acontecimentos, para si mesmo e para as outras pessoas.

Como complemento desta carta, sugiro que assista aos vídeos abaixo que estão no meu canal do YouTube com título:

3 ensinamentos Estoicos para uma mente equilibrada:

Não passe o dia sem se perguntar isto:

Sugiro também que ouça o episódio de número 3 do Podcast da Garota Estoica, com o título: “Percepções distorcidas”

Disponibilizo abaixo o link caso queira adquirir o livro Meditações com desconto pela Amazon:

Encerro com nossa frase habitual:

“Enquanto vive, continue aprendendo a viver.”
— Sêneca

Obrigada por fazer parte da nossa comunidade Estoica! É uma honra ter você comigo na caminhada!

Nos vemos na próxima carta com mais dicas e pensamentos Estoicos - a ser enviada em 1 de Setembro de 2021.

Até lá!

Com carinho,

Garota Estoica / Vanessa Cunha


Lembre-se também de assinar a newsletter e o podcast da Garota Estoica, e segui-la nas redes sociais para receber mais conteúdos de excelente qualidade como esses que você degustou aqui. Acesse: linktr.ee/garotaestoica.


Notas

[1] Aka ou a.k.a. é a abreviação para “Also Known As”, uma expressão em inglês que significa “também conhecido como”, é usado para dar um significado ou nome mais conhecido a uma palavra ou pessoa.

Aka é um termo bastante utilizado na internet. Aka também é muito usado para autores e pessoas conhecidas, como apelidos, pseudônimos etc., em especial em linguagens da internet. Aka descreve pseudônimos de autores, apelidos, apelidos de trabalho, nomes legalizado, pseudônimos, nomes de solteira etc.

A abreviação pode ser vista em livros, mas se popularizou mais na internet, onde as pessoas utilizam bastante abreviações e siglas, além de mostrar um certo status, que o indivíduo que possui um AKA logo após seu nome é bastante conhecido.

Aka”, Significados.com.br, significados.com.br/aka.
[consultado em 26-08-2021].

[2] ME·TA·COG·NI·ÇÃO s.f.

Conhecimento que um indivíduo tem acerca dos próprios processos cognitivos (mentais), sendo capaz de refletir ou entender sobre o estado da sua própria mente (pensamento, compreensão e aprendizado).

Etimologia (origem da palavra metacognição). Meta + cognição, do latim cognitio.onis, ação de conhecer.

Definição de Metacognição

• Classe gramatical: substantivo feminino;

• Separação silábica: me-ta-co-gni-ção;

• Plural: metacognições.

Metacognição”, Dicio, Dicionário Online de Português, dicio.com.br/metacognicao/
[consultado em 26-08-2021].


tags: